Residência Artística- Hugo Vasco Reis e Trevor McTait
04-09 OUT 2026 | Lisboa Incomum
Concerto
9 OUT, 19h30 | Lisboa Incomum
O compositor Hugo Vasco Reis e o violetista Trevor McTait estarão em residência artística no Lisboa Incomum, onde irão trabalhar numa nova peça para viola e electrónica.
A residência culminará no concerto de abertura do Festival Imersivo, que terá lugar no dia 09 de Outubro, às 19h30, no Lisboa Incomum.
Programa
Jaime Reis: Fluxus, Transitional Flow
Eduardo Luís Patriarca: Un Souffle, Le Rêve
Hugo Vasco Reis: Re-Memory I*
Miguel Azguime: Dedans-Dehors
Igor C Silva: Terminus
*Estreia mundial, encomenda Projecto DME
Jaime Reis:Fluxus, Transitional Flow
Esta peça pertence ao ciclo Fluxus, cujas peças são inspiradas em elementos da Física e nas quais são desenvolvidos elementos musicais que se relacionam com determinados fenómenos físicos relacionados com a mecânica dos fluidos. Nesta peça em particular, encomenda do Festival Primavera, foram gravados sons de aviões do Aeroclube de Torres Vedras e utilizadas técnicas de síntese que remetessem para a ideia de um fluxo musical que parte da viola d'arco e é expandido para a electrónica, em transições que passam desde os elementos mais próximos ao material musical instrumental, como que se de um fluxo laminar (numa perspectiva física) se tratasse, até elementos mais imprevisíveis, como se de num fluxo turbulento, gerando assim um jogo constante de transições entre os diferentes materiais musicais e seus tratamentos. Foi concebida como uma peça didáctica cujas partes foram organizadas para poderem ser tocadas por alunos em níveis diferentes de modo a promover o estudo do instrumento por alunos do Ensino Artístico Especializado em práticas menos frequentes como a música electroacústica.
Eduardo Luís Patriarca: Un Souffle, Le Rêve
Un Souffle, Le Rêve integra um ciclo de obras dedicado a instrumentos de cordas. A obra parte da ideia de um “som único” e de uma escuta meditativa e contínua desse som, a partir do qual se desenvolve todo o restante material musical.
Esta abordagem estabelece uma relação com uma preocupação presente na chamada Escola Espectral, embora aqui explorada de forma particular. A atenção à natureza do som e às suas possibilidades de transformação conduz ao aparecimento de relações microtonais e de um material musical que se vai progressivamente construindo a partir desse núcleo sonoro.
A ideia de permanecer sobre um som, observá-lo e descobrir nele novas possibilidades aproxima-se de uma preocupação partilhada por compositores como Gérard Grisey, Jonathan Harvey e Georg Friedrich Haas, entre outros. Mais do que um processo puramente técnico, esta exploração assume também uma dimensão filosófica e contemplativa: o som torna-se simultaneamente ponto de partida, matéria e espaço de escuta.
Hugo Vasco Reis: Re-Memory I
"O passado é tudo menos o que já passou. É algo a que eu posso sempre voltar de novo.”
Esta citação de Martin Heidegger, em “O conceito de tempo”, serve de premissa para Re-Memory, um ciclo de obras a solo, com recurso a amplificação e/ou electrónica. Assim, em cada obra, a memória é revisitada com base na escuta e mediação de gravações de campo, realizadas pelo compositor, as quais contêm arquivos sonoros tais como, sons no interior de árvores, sons em estruturas metálicas, ou sons de debaixo de água, apenas para nomear alguns, cujo conceito se inclui, segundo o próprio, como parte do ambiente sónico silencioso. O objetivo é, através da prática artística, incitar a uma nova consciência sonora da realidade "ausente" em que todos vivemos.
Miguel Azguime: Dedans-Dehors
"Inside-outside" explora uma dualidade no carácter musical da viola. Por um lado, exuberante, enérgica e brusca; por outro, delicada, íntima e ténue.
Recorrendo a técnicas instrumentais e a uma linguagem musical levadas ao extremo, esta dualidade é acentuada tanto quanto possível. A obra oscila entre momentos excessivamente rápidos e agressivos e outros construídos a partir das sonoridades mais suaves e de frases longamente dilatadas no tempo.
A obra prevê também a possibilidade de utilização de eletrónica em tempo real. Na presente ocasião, é apresentada na sua versão para viola solo.
Igor C Silva: Terminus
Esta peça representa o fim de tudo aquilo que conhecemos. É uma forma de expressar as cores e os sentimentos associados a todos os ciclos que chegam ao fim. Uma peça para viola e electrónica que explora a ideia de espaço como lugar de ressonância e suspensão, onde o som se estende para além do gesto instrumental. Entre a noção de fim e a contemplação, a música habita um território liminar em que cada som parece persistir, observar e desaparecer lentamente.
Hugo Vasco Reis
Hugo Vasco Reis (Lisboa, 1981) é compositor e investigador, a viver no Porto. A sua prática artística estende-se à música acústica, música electroacústica e instalações sonoras, realizando colaborações com músicos e artistas visuais, que apresentam regularmente as suas obras por toda a Europa.
A sua música está documentada num vasto catálogo de partituras e álbuns, tendo sido premiada ou selecionada em diversos concursos nacionais e internacionais.
As suas composições recentes incluem uma investigação sobre os fenómenos sonoros e de percepção, abordando agências de escuta e mediação, com o objetivo de incluir sons aparentemente silenciosos do ambiente sonoro na prática artística.
Atualmente é doutorando na University of Music and Performing Arts Graz, KUG (Áustria), como bolseiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Estudou composição com Isabel Mundry na Zurich University of the Arts, ZHdK (Zurique, Suíça), como bolseiro da Fondation Nicati-de Luze, com Mark André e Stefan Prins na Hochschule für Musik Dresden (Dresden, Alemanha) e com António Pinho Vargas, Luís Tinoco e Sérgio Azevedo na Escola Superior de Música de Lisboa (Lisboa). Teve aulas particulares e masterclasses com os compositores Toshio Hosokawa, Chaya Czernowin, Hans Tutschku, Dieter Ammann, Franck Bedrossian, Barry Truax, Zigmunt Krauze, Åke Parmerud, Carola Bauckholt, Klaus Lang, Peter Ablinger, entre outros.
As suas obras têm sido apoiadas pelo Ministério da Cultura de Portugal, DGArtes, Antena 2, Câmara Municipal de Lisboa, SPAutores, GDA, Coro Setúbal Voz, Síntese GMC, Musicamera, Borealis Ensemble, MPMP, Duo Sigma, Arte no Tempo, ZHdK Foundation, Momento Foundation, Graf-Fonds, Gaudeamus, KWDS, Trio Elogio, GMCL, Drumming, Vertixe Sonora, Collective Lovemusic, QCC String Quartet, Trio Piazzolla Lisboa, Orchestra della Svizzera Italiana, Miso Music Portugal, RePercussion Trio, Orquestra Portuguesa de Guitarras e Bandolins, Trio Funkloch e Kuratorium Aargau.
As suas partituras encontram-se editadas e disponíveis no MIC.PT – Centro de Investigação e Informação da Música Portuguesa.
Estudou também guitarra portuguesa no Conservatório de Música do Porto e na classe de Pedro Caldeira Cabral. É engenheiro civil, embora atualmente não exerça essa profissão.
Trevor McTaitTrevor McTait é violetista principal do Remix Ensemble e da Orquestra Barroca da Casa da Música, e professor de música de câmara na Escola Profissional de Música de Espinho. Em 2026, lançou Fifty-Fifty, um álbum dedicado à música portuguesa contemporânea para viola solo e viola com eletrónica, e Ténue, um segundo álbum inteiramente dedicado à obra do compositor Hugo Vasco Reis.
Em Londres, trabalhou regularmente com a Orquestra Sinfónica da BBC e a Philharmónica de Londres, participando, entre outros, nos concertos dos BBC Proms, e integrou o Archinto String Quartet e o Chroma, ensemble dedicado à música contemporânea. Ao longo da sua carreira, apresentou-se em algumas das mais importantes salas internacionais, incluindo o Carnegie Hall, em Nova Iorque, o Symphony Hall, em Washington D.C., a Philharmonie de Berlim e o Esplanade Theatre de Singapura, bem como nas principais salas de concerto de Londres. Em contexto orquestral, trabalhou sob a direção de maestros como Bernard Haitink, Vladimir Ashkenazy, Semyon Bychkov, Jukka-Pekka Saraste, Jiří Bělohlávek, Sir Colin Davis e Leonard Slatkin, entre outros, e colaborou com solistas de renome como Maxim Vengerov, Yuri Bashmet, Evgeny Kissin, Steven Isserlis e Fabio Biondi. A sua discografia inclui gravações com a BBC Symphony Orchestra, o Remix Ensemble, a Orquestra Barroca da Casa da Música e a MusikFabrik, entre outras formações.
A sua atividade artística cruza a música contemporânea, a música antiga e a música de câmara. Ao longo da carreira, colaborou com diversos ensembles internacionais, incluindo a MusikFabrik, de Colónia, a Basel Sinfonietta e os New London Soloists, entre outros. Em Portugal, é convidado regularmente a atuar com a Orquestra D'Aquém Mar. Foi também violetista principal da Orquestra Clássica do Centro, da Orquestra de Espinho e da Orquestra Costa Atlântica, tendo colaborado ainda com artistas de diferentes áreas, como Mariza, César Mourão, S. Pedro, Miguel Araújo, Diogo Piçarra e Mão Morta.
Nascido em Hertfordshire, Inglaterra, obteve um mestrado em Música pela Universidade de Cambridge e o DipRAM pela Royal Academy of Music, em Londres, onde foi bolseiro Leverhulme para música de câmara. Estudou viola com violetistas como Martin Outram, Rivka Golani, Paul Silverthorne, Jerzy Kozmala, Atar Arad e John White, e trabalhou música de câmara com músicos como Sigmund Nissel, do Amadeus Quartet, Sandor Devich, do Bartók Quartet, Sir Colin Davis e diversos quartetos de referência. Entre 1998 e 2000, foi violetista solista A da European Union Youth Orchestra, sob a direção de Vladimir Ashkenazy e Bernard Haitink.